Estranhos no ninho: Durigutti e Vigil
Por José Petit Rodrigues
O mundo dos vinhos sempre
nos traz novidades surpreendentes. Há dois anos, Durigutti me apresentou os
vinhos que está fazendo na Espanha e, mais recentemente, conheci os de
Alejandro Vigil em terras espanholas. A reação foi a mesma: era algo novo, nada
a ver com os argentinos e com os espanhóis. Como é que pode?
Fiquei
matutando sobre isso e me lembrei de uma conversa de mesa de bar – Petit
Verdot, claro – com o decano da enologia portuguesa, António Saramago. Eu
estava impressionado com a diferença que a linha Terra D'Alter apresentava.
Tinha um quê não português e não conseguia entender. Com a curiosidade nata de
repórter, perguntei: por que tanta diferença? A resposta foi
pronta: o enólogo é australiano. Pesquisei e estava lá: Peter Bright.
O
que tem uma coisa a ver com a outra? Um detalhe que faz toda a diferença,
pensei. A terra é a mesma do vizinho, a uva é a mesma. Então, só pode ser
cultura de fora, o jeito de fazer vinhos em outro país. Uma questão de alma,
pois. O jeito de tratar a terra, a uva, o tempo da colheita e a produção
propriamente dita. Estava aí toda a diferença. Era melhor ou pior que os demais
alentejanos? Recorro ao grande Paulo Laureano, que disse uma vez: “Não é que um
seja melhor ou o outro pior; são diferentes”...
Os argentinos Pablo e
Héctor Durigutti sofreram encantamento à primeira vista quando conheceram a
Galícia, e logo compraram um castelo abandonado e terras para fazerem o que
mais sabem: vinho. “Este cenário é maravilhoso e, pessoalmente, representa um
novo desafio para mim na produção de vinhos brancos, algo que sempre me
fascinou, apesar de eu trabalhar principalmente com vinhos tintos na Argentina.
As castas autóctones deste lugar permitem-nos crescer com novos projetos
profissionais, combinando a nossa perspectiva de forasteiros, mas num ambiente
em que nos sentimos verdadeiramente em casa”, afirma Pablo Durigutti.
Foi ele mesmo quem disse:
“... combinando a nossa perspectiva de forasteiros”... Nascia aí a Castrelo das
Pedras 1836 e os vinhos da linha Raíces del Miño. Raríssimos diante da pequena
tiragem.
E o mago Alejandro Vigil
também entrou nessa, meio que por acaso. Ele tinha se apaixonado por El
Reventón. Conseguiu comprar as terras junto com Adrianna Catena, parceiros na
El Enemigo, e criou uma vinícola totalmente orgânica. Produz dois vinhos com
uva grenache, disponíveis na Mistral: La Reina e Nº 17 (2017)
Este último é fruto de
solidariedade: por conta de um acidente, a El Reventón perdeu cinco mil litros
de mosto e foi socorrida pelo vizinho, o jovem enólogo Juan André Martin Pérez,
que ofereceu a Vigil parte de suas uvas colhidas em vinhedos antigos a novecentos
metros de altitude. Nascia a parceria entre os dois enólogos e esse curioso
vinho.
Sempre tive essas coisas
na cabeça e aproveitei o último Descorchados
para perguntar diretamente a Alejandro Vigil. Comentei que já tinha provado os
vinhos que dois argentinos fazem na Espanha, que gostei muito e nem parecia espanhóis.
Peguei-o meio de surpresa. Parecia que não tinha pensado nisso antes e deu uma
saída à Paulo Laureano: são diferentes.
Contei a história acima,
do vinho Terra D'Alter feito por um australiano em Portugal, e a conclusão de
António Saramago, que a diferença estava num australiano fazendo vinho no
Alentejo. Conclui-se daí que ele estava usando seu aprendizado na terra natal,
seus conhecimentos, experimentos e ideias para uma região em que os enólogos
partem de uma mesma cultura. Daí a diferença. E aí acrescentei: e a alma do enólogo...
Vigil pensou um
pouquinho, seus olhos brilharam e respondeu: “Pode ser mesmo”.