quarta-feira, 4 de março de 2026

 

A hora e vez

dos branquinhos.

E dos rosés.


 Por José Petit Rodrigues



Este verão será inesquecível. Todo mundo reclamando das altas temperaturas e jurando que nunca essa estação foi tão quente. Exagero? Pode ser, mas que está sendo vesuviano, está.

 

Isso está trazendo reflexos no nosso mundo, o do vinho. Tinteiros juramentados e de carteirinha até arrepiavam quando se falav em vinho tinto. Perderam a vergonha e já deixam cair em suas taças os brancos e rosés, bem geladinhos. "Pra não perder o costume de beber vinho", justificam.

 

Nada que um bom ar-condicionado não resolva, e isso faz com que os tintos tenham sempre seu lugar neste país tropical abençoado por vinhos do mundo todo.

 

Isso reforça a tese de que os brancos e rosés estão, finalmente, caindo no agrado do brasileiro, optante voraz dos tintos. Foi um grande passo e, como diz a música do Milton Nascimento, nada será como antes.

 

Aliás, o antes foi diferente. Lembro que bebia-se muito ali pelos anos 1970 o Matheus Rosé. Torcia-se um pouco o nariz diante do Calamares, mas era uma bebida que estava em todas as mesas. E aí o sucesso despertou a picaretagem: começaram a misturar brancos e tintos para chegar ao rosado. A qualidade caiu muito e o rosé virou mico.

 

Já com o branco o processo foi diferente: a gente bebia o liebfraumilch nacional, garrafa verdinha e seco. No Rio Grande do Sul e em São Roque produzia-se bastante desses vinhos. O riesling da Almadén ficou famoso. Era um consumo bem inferior ao dos tintos, mas havia seguidores.

 

Ainda nos anos 1970-1980, houve a explosão dos famosos liebfraumilch alemães, de garrafa azul. Conquistou as mulheres de imediato, e o consumo explodiu. Uma geração de homens que torcia o nariz para os vinhos, preferindo o status que o uísque proporcionava, também se rendeu.

 

Logo os novos enófilos (naquele tempo essa expressão não fazia parte do vocabulário cotidiano) viram que havia algo mais além do que os alemãezinhos doces. Passaram a experimentar os tintos e aí foram evoluindo, dos suaves para os meio secos até os secos.

 

Secos, porém não ácidos. Talvez seja daí que o vinho português passou a ser rejeitado. Naquela época, bebia-se muito os produzidos no Dão, como o Dão Vasco, com a pegada típica regional e bastante ácidos. Foi a porta aberta para o malbec argentino, mais "aveludado".

 

Essa geração evoluiu muito, mas o preconceito contra o rosé permanecia. Eu continuava gostando e, em 2011, tivemos a ideia de promover uma campanha no começo da Petit Verdot: Outubro Rosa. O lucro obtido com esses vinhos seria revertido para a campanha contra o câncer de mama.

 

Naquele mês, os clientes eram recebidos com uma taça de rosé, com rótulos diferentes a cada dia. Poucos reagiram negativamente, e não me sai da mente a expressão de espanto que todos faziam. Mas teve um amigo que cometeu uma desfeita e não queria provar de jeito nenhum. Aí tive de recorrer a uma lição do meu amigo Luiz Fernando Bueno, médico que hoje está clinicando na espiritualidade: de graça, até injeção na testa. Convenci e ele venceu o preconceito. Não conseguiu esconder a cara de espanto e pegou uma garrafa desse vinho para beber na mesa. Ao sair, levou outra pra casa.

 

Ao mesmo tempo, os amigos-clientes voltavam da Europa admirados: tá todo mundo bebendo rosé. E experimentavam essa sensação na Petit Verdot, que tinha o maior portfólio de rosados do mundo todo.

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