A hora e vez
dos branquinhos.
E dos rosés.
Este verão será inesquecível. Todo mundo reclamando das altas temperaturas e jurando que nunca essa estação foi tão quente. Exagero? Pode ser, mas que está sendo vesuviano, está.
Isso está trazendo reflexos no nosso mundo, o do
vinho. Tinteiros juramentados e de carteirinha até arrepiavam quando se falav
em vinho tinto. Perderam a vergonha e já deixam cair em suas taças os brancos e
rosés, bem geladinhos. "Pra não
perder o costume de beber vinho", justificam.
Nada que um bom ar-condicionado não resolva, e
isso faz com que os tintos tenham sempre seu lugar neste país tropical
abençoado por vinhos do mundo todo.
Isso reforça a tese de que os brancos e rosés estão, finalmente, caindo no
agrado do brasileiro, optante voraz dos tintos. Foi um grande passo e, como diz
a música do Milton Nascimento, nada será como antes.
Aliás, o antes foi diferente. Lembro que
bebia-se muito ali pelos anos 1970 o Matheus Rosé. Torcia-se um pouco o nariz
diante do Calamares, mas era uma bebida que estava em todas as mesas. E aí o
sucesso despertou a picaretagem: começaram a misturar brancos e tintos para
chegar ao rosado. A qualidade caiu muito e o rosé virou mico.
Já com o branco o processo foi diferente: a
gente bebia o liebfraumilch nacional, garrafa verdinha e seco. No Rio Grande do
Sul e em São Roque produzia-se bastante desses vinhos. O riesling da Almadén ficou
famoso. Era um consumo bem inferior ao dos tintos, mas havia seguidores.
Ainda nos anos 1970-1980, houve a explosão dos
famosos liebfraumilch alemães, de garrafa azul. Conquistou as mulheres de
imediato, e o consumo explodiu. Uma geração de homens que torcia o nariz para
os vinhos, preferindo o status que o uísque
proporcionava, também se rendeu.
Logo os novos enófilos (naquele tempo essa
expressão não fazia parte do vocabulário cotidiano) viram que havia algo mais
além do que os alemãezinhos doces. Passaram a experimentar os tintos e aí foram
evoluindo, dos suaves para os meio secos até os secos.
Secos, porém não ácidos. Talvez seja daí que o
vinho português passou a ser rejeitado. Naquela época, bebia-se muito os
produzidos no Dão, como o Dão Vasco, com a pegada típica regional e bastante
ácidos. Foi a porta aberta para o malbec argentino, mais "aveludado".
Essa geração evoluiu muito, mas o preconceito
contra o rosé permanecia. Eu
continuava gostando e, em 2011, tivemos a ideia de promover uma campanha no
começo da Petit Verdot: Outubro Rosa. O lucro obtido com esses vinhos seria
revertido para a campanha contra o câncer de mama.
Naquele mês, os clientes eram recebidos com uma taça
de rosé, com rótulos diferentes a
cada dia. Poucos reagiram negativamente, e não me sai da mente a expressão de
espanto que todos faziam. Mas teve um amigo que cometeu uma desfeita e não
queria provar de jeito nenhum. Aí tive de recorrer a uma lição do meu amigo Luiz
Fernando Bueno, médico que hoje está clinicando na espiritualidade: de graça,
até injeção na testa. Convenci e ele venceu o preconceito. Não conseguiu
esconder a cara de espanto e pegou uma garrafa desse vinho para beber na mesa.
Ao sair, levou outra pra casa.
Ao mesmo tempo, os amigos-clientes voltavam da
Europa admirados: tá todo mundo bebendo rosé.
E experimentavam essa sensação na Petit Verdot, que tinha o maior portfólio de
rosados do mundo todo.
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