quinta-feira, 30 de abril de 2026

Estranhos no ninho: Durigutti e Vigil


Estranhos no ninho: Durigutti e Vigil

 

Por José Petit Rodrigues

 

O mundo dos vinhos sempre nos traz novidades surpreendentes. Há dois anos, Durigutti me apresentou os vinhos que está fazendo na Espanha e, mais recentemente, conheci os de Alejandro Vigil em terras espanholas. A reação foi a mesma: era algo novo, nada a ver com os argentinos e com os espanhóis. Como é que pode?

 

Fiquei matutando sobre isso e me lembrei de uma conversa de mesa de bar – Petit Verdot, claro – com o decano da enologia portuguesa, António Saramago. Eu estava impressionado com a diferença que a linha Terra D'Alter apresentava. Tinha um quê não português e não conseguia entender. Com a curiosidade nata de repórter, perguntei: por que tanta diferença? A resposta foi pronta: o enólogo é australiano. Pesquisei e estava lá: Peter Bright.

 

O que tem uma coisa a ver com a outra? Um detalhe que faz toda a diferença, pensei. A terra é a mesma do vizinho, a uva é a mesma. Então, só pode ser cultura de fora, o jeito de fazer vinhos em outro país. Uma questão de alma, pois. O jeito de tratar a terra, a uva, o tempo da colheita e a produção propriamente dita. Estava aí toda a diferença. Era melhor ou pior que os demais alentejanos? Recorro ao grande Paulo Laureano, que disse uma vez: “Não é que um seja melhor ou o outro pior; são diferentes”...

 

Os argentinos Pablo e Héctor Durigutti sofreram encantamento à primeira vista quando conheceram a Galícia, e logo compraram um castelo abandonado e terras para fazerem o que mais sabem: vinho. “Este cenário é maravilhoso e, pessoalmente, representa um novo desafio para mim na produção de vinhos brancos, algo que sempre me fascinou, apesar de eu trabalhar principalmente com vinhos tintos na Argentina. As castas autóctones deste lugar permitem-nos crescer com novos projetos profissionais, combinando a nossa perspectiva de forasteiros, mas num ambiente em que nos sentimos verdadeiramente em casa”, afirma Pablo Durigutti.

 

Foi ele mesmo quem disse: “... combinando a nossa perspectiva de forasteiros”... Nascia aí a Castrelo das Pedras 1836 e os vinhos da linha Raíces del Miño. Raríssimos diante da pequena tiragem.

 

E o mago Alejandro Vigil também entrou nessa, meio que por acaso. Ele tinha se apaixonado por El Reventón. Conseguiu comprar as terras junto com Adrianna Catena, parceiros na El Enemigo, e criou uma vinícola totalmente orgânica. Produz dois vinhos com uva grenache, disponíveis na Mistral: La Reina e Nº 17 (2017)

 

Este último é fruto de solidariedade: por conta de um acidente, a El Reventón perdeu cinco mil litros de mosto e foi socorrida pelo vizinho, o jovem enólogo Juan André Martin Pérez, que ofereceu a Vigil parte de suas uvas colhidas em vinhedos antigos a novecentos metros de altitude. Nascia a parceria entre os dois enólogos e esse curioso vinho.

 

Sempre tive essas coisas na cabeça e aproveitei o último Descorchados para perguntar diretamente a Alejandro Vigil. Comentei que já tinha provado os vinhos que dois argentinos fazem na Espanha, que gostei muito e nem parecia espanhóis. Peguei-o meio de surpresa. Parecia que não tinha pensado nisso antes e deu uma saída à Paulo Laureano: são diferentes.

 

Contei a história acima, do vinho Terra D'Alter feito por um australiano em Portugal, e a conclusão de António Saramago, que a diferença estava num australiano fazendo vinho no Alentejo. Conclui-se daí que ele estava usando seu aprendizado na terra natal, seus conhecimentos, experimentos e ideias para uma região em que os enólogos partem de uma mesma cultura. Daí a diferença. E aí acrescentei: e a alma do enólogo...

 

Vigil pensou um pouquinho, seus olhos brilharam e respondeu: “Pode ser mesmo”.

 

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