O veneno nosso de cada dia
José Petit Rodrigues
Creio que um mundo novo começou a partir de 1950. Admirável e abominável ao mesmo tempo. A evolução tecnológica disparou e teve um disparo maior nos anos 2000 e hoje os benefícios – e malefícios – se espalharam para a grande maioria da população.
Quem nasceu depois de 1950 acompanhou todas as mudanças, que ocorreram também na área de alimentos. Eu mesmo (de 51...) me lembro do café da manhã simples em casa: leite, café que minha mãe preparava para as crianças (na verdade, deixava o café passando mais tempo no coador depois de ter retirado o dos adultos), pão e manteiga ou nata com sal. Sim, nata, aquela coisa que o leite tinha em grande quantidade...
Éramos felizes e não sabíamos. Almoço com legumes, arroz, feijão, uma carninha para matar a fome adquirida nas infindáveis brincadeiras de rua. Mas a felicidade cresceu quando começaram a surgir as novidades. Margarina, que não entupia as veias e não endurecia na geladeira. Banha de porco? Nem pensar. Pegávamos um litro vazio e íamos até a loja de secos e molhados para buscar o puro óleo vegetal, que vinha em tambores metálicos de 200 litros.
Estávamos felizes e não sabíamos onde ia dar isso tudo. Aí apareceu a Coca-Cola substituindo o guaraná e seu arremedo, a tubaína. Que felicidade quando chegava o domingo e nossos pais abriam uma garrafa de Coca família, que prometia quatro copos ou mais. Isso porque os copos americanos já eram usados naquela época. Era só no domingo...
Pão francês de padaria? Nada disso, a ordem era o pão americano da Pullmann. Carne de porco? A indústria se aprimorou para fazer os famosos embutidos, os presuntos que faziam nossa alegria nos mistos quentes ou frios. Lembro que comi o primeiro misto quente nas lojas. Americanas da rua Direita, onde na entrada da adolescência o caipira aqui foi conhecer a escada rolante. Tecnologia e alimentação traziam sempre novidades...
As salsichas que eram vendidas enlatadas ganharam liberdade para chegar outra novidade americana: hot dog... Diz a lenda que a Coca-Cola não pegava de jeito nenhum no Brasil, até que alguém teve a ideia de lançar nos carrinhos de cachorro quente uma promoção: beba uma Coca e ganhe um sanduíche. Como de graça até injeção na veia...
Como sempre, tinha os pessimistas, que iam contra essas inovações alimentares: se você visse como é feita a mortadela, jamais comeria. Não me esqueço dessa frase, mas continuei comendo a delícia do momento. Salsicha? É feita com papel jornal e ninguém sabe o que tem dentro. Eram os desmancha-prazeres que existiam.
Nisso as prateleiras dos supermercados – que substituíram as lojas de secos e molhados – estavam cheias dessas coisas que passaram a ser conhecidas por guloseimas, comidas entre um e outro chiclete de bola.
Aqui, um parênteses. Até o final da II Guerra, o Brasil tinha uma tendência cultural mais ligada à Europa, de onde copiava os costumes. Com o final da II Guerra, essa influência foi logo substituída pela americana, iniciada com acordos bilaterais ainda durante o conflito de financiamento para a construção de siderúrgica que marcaria a industrialização do País, que apoiaria os Aliados e forneceria produtos agrícolas como borracha, algodão e café. A partir dos anos 1950, houve a efetivação da troca de valores culturais.
Voltando às comidinhas. Havia um gibi – Sobrinhos do Capitão – que tinha um personagem secundário de tio muito gordo e que não largava de seu hambúrguer. Aqui foi ficando na nossa cabeça, alimentou nossa vontade e, quando finalmente chegou ao Brasil, foi um sucesso imediato. E a gente nem ainda tinha ouvido falar em propaganda subliminar...
E quando chegaram os famosos salgadinhos? Nossa, foi uma loucura. Afinal, era impossível comer um só, como ensinava a publicidade. Ao mesmo tempo e depois de atacar muito o leite de vaca, a indústria descobriu outra mina para ganhar dinheiro: o leite em pó em substituição ao leite materno. Atacou-se em cheio a amamentação, alegando-se que o pó era um alimento melhor e mais saudável e, apelo final, evitavam que os peitos das mães ficassem caídos... Hoje o fabricante reconhece que havia excesso de açúcar em seu produto.
Logo surgiram as sopinhas para iniciar as crianças na alimentação sólida e mais tarde, os iogurtes criados em laboratório: Danoninho vale por um bifinho era a propaganda. Valia mesmo. Hoje sabemos que é um dos ultraprocessados do mercado. Completando esse ciclo, estamos dando um chocolatinho para as crianças que tem de tudo, menos cacau.
E assim caminhou a humanidade. Particularmente, estou fazendo uma releitura da alimentação nestes 75 anos e a conclusão é óbvia: estamos sendo envenenados no nosso dia a dia. Estão nos envenenando de forma planejada e continuada com um fim perverso de provocar doenças com a venda de alimentos fakes, remédios para continuarmos comendo essas coisas e hospital para quando a farmácia não dá jeito.
Na análise da alimentação que estamos tendo nestes tempos chamados modernos, percebi que produtos com conteúdo altamente salgado, açucarado ou gorduroso estão dominando o mercado, além de conterem inúmeros aditivos e conservantes químicos, alheios à necessidade humana. Nessa marcha, cientistas e médicos foram cooptados para reforçar a campanha contra os alimentos naturais, conduzindo, indiretamente, os consumidores a essas coisas nocivas aos humanos.
No universo de consumidores de remédios para diabetes, pressão alta, colesterol, qualquer mudança, cada mudança na taxa máxima permissível leva milhões de cidadãos às farmácias. Quando o colesterol de risco caiu de 230 mg/dl para 190, quantos milhões de consumidores foram conquistados pela indústria farmacêutica?
Particularmente, tomo remédio de colesterol há 50 anos (mais de 18 mil comprimidos) e fiquei relaxado quando soube que podia ser hereditário. E, relaxado, passei a liberar comidas que devia evitar. Pressão alta? Só uso há 40 anos (mais de 14 mil comprimidos)...
Isso tudo após ter ficado em choque quando o médico descobriu pressão alta e me disse: você vai tomar esse remédio para o resto da vida. Meu problema estava resolvido e nenhuma palavra sobre consumo de alimentos perniciosos.
Nesse meio tempo, sempre me revoltei contra um fato que quase ninguém comenta: os laboratórios não pesquisam para curar doenças, querem remédios que controlem e mantenham o cliente consumindo seus produtos até a morte. Essa percepção só tive na chegada da AIDS, quando percebi que não queriam a cura.
Na pandemia de Covid, passamos por um processo mais radical: combatia-se a vacinação que curava e receitava-se o consumo de três drogas para evitar o contágio. Felizmente, criou-se a vacina e muitas vidas foram salvas. Mas fica a pergunta: quantos milhões (ou bilhões?) de comprimidos ilusórios foram vendidos naquele período?
Aí temos uma intoxicação a mais, pois além de aliviar os males, os remédios contêm substâncias que atacam ou sobrecarregam outros órgãos.
Mas voltemos aos alimentos e seus venenos. Os produtores escolhem a menor das letras para informar o que contém naquilo que vamos comer. Praticamente impossível de ler e isso está exigindo providências urgentes e enérgicas por parte dos órgãos governamentais que regulam o setor.
Outro dia, tive a curiosidade de comparar os cremes de leite. As caixinhas eram bem mais baratas e pensei: a lata deve ser mais cara. Aí fui olhar a composição e vi que era ultraprocessado. Comparei todos os produtos e o único autêntico era justamente a lata do mais tradicional. Já a caixinha da mesma marca nada tinha a ver e nenhuma indicação de que era "sabor creme de leite".
Os mais saudosistas entraram em crise quando produtos como Bis, Sonho de Valsa e tantos outros passaram a não ter ou contar com quantia irrisória de cacau. Acima da palavra chocolate bem visível, aparece a nova palavra mágica, em letra bem reduzida: sabor. Como se dizia antigamente, me engana que eu gosto.
Ao lado de todos esses problemas, somos bombardeados por "doutores" que nos ensinam o que devemos ou não comer. Esse excesso de informação deturpa a razão e às vezes a gente entra em crise existencial: comer ou não comer, eis a questão...
Na outra ponta, temos os alimentos orgânicos, sem uso de agrotóxicos. Não têm a exuberância dos produtos "vitaminados" com substâncias que o agro usa no solo e na planta para conseguir vencer as pragas, mas são saudáveis. O problema está no preço, proibitivo para a maioria da população.
Fazer o quê? Uma solução pode ser a busca do equilíbrio, conciliar a proteção ao solo e ao meio ambiente ao uso minimamente necessário dos insumos agrícolas para termos produtos mais saudáveis. Ao mesmo tempo, restringir o consumo de "alimentos" ultraprocessados. E lutar para que as autoridades da saúde, da agricultura e do meio ambiente assumam a responsabilidade frente ao problema. Enquanto isso não acontece, temos de lutar pela nossa proteção, protestar pelo descaso e votar em candidatos que estejam do lado da vida, não da doença e da morte.
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