segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Casa Vigil: o paraíso existe? é aqui?

 


Casa Vigil: 

O paraíso existe?

 é aqui?



Texto e fotos: José Petit Rodrigues

Um olhar diferente sobre 

a Casa Vigil, em Mendoza. 

 Afinal, lá  tudo é diferente

Se houver mais de um paraíso, certamente a Casa Vigil é um deles. Poderia ser apenas um restaurante belo e estrelado pelo Michelin ou um bom local para a degustação de vinhos fantásticos (ou paradisíacos?). É tudo isso, porém, é apenas uma parte do que o mago Alejandro Vigil e Maria Sance oferecem aos visitantes, sempre tratados como amigos.

Ao chegar, a recepção é feita com uma taça de vinho que não é comercializado pela bodega El Enemigo. Pequena produção, sempre é surpreendente e nos faz lembrar que, mesmo com toda humildade, o vinho é uma bebida divina. E uma surpreendente empanada feita com carinho.

Foto Olga Maria P. Rodrigues
Mas antes de chegar ao vinho, há uma horta-jardim no meio do caminho. Canteiros de flores multicoloridas, intercalados com ervas de tempero, atraem os olhares, tal o cuidado com que são tratados. E, o melhor, tudo é comestível! Com jeito, pode-se pedir aos jardineiros explicações e experimentar ali mesmo produtos que costumamos comprar já ressecados para temperar nossos pratos. Pode sentir a diferença de aroma e sabor de alecrim trazido de várias partes do mundo.

Já pensou numa degustação dessas? E pode levar para casa em vidrinhos... Não que vá colher e levar. A Casa Vigil prepara uma linha completa de temperos, vendida com o nome de De mi campo. Se não bastar essa novidade, experimente o sal grosso do Himalaia temperado com as uvas torrontés ou malbec...

Como não deve existir paraíso sem uma praça, ali há também uma especial para aguardar a chamada para o almoço ou degustação. Nada que já não tenha visto, mas será difícil encontrar outra que ofereça tanta paz. Tanta que é difícil sair dali, estadia que sempre tem uma tentação a mais: os ótimos vinhos da El Enemigo, comprados na lojinha e bebidos ali mesmo.

A Casa Vigil oferece ainda outra atração, esta concebida para brindar à vida: uma representação em concreto da Divina Comédia de Dante devidamente adaptada a Chachingo, uma região de Mendoza. A obra faz parte da infância de Vigil: Tristan, seu avô materno, recitava trechos da obra para o garotinho que ali começou a entender o mundo voltado à natureza e o estudo da terra. Adulto e formado em agronomia, ele se tornou o maior especialista em solo e uva, a combinação perfeita para um bom vinho. Nicolás Catena precisou de dois anos de conversa para contratá-lo como enólogo. Ele relutava em deixar seu emprego público e alimentava um certo temor de fazer vinhos.

Alejandro Vigil não precisou de muito esforço para começar a produzir grandes vinhos para a Catena. Sua base humanística trazida da família e o conhecimento técnico proporcionado pelo estudo e experiência logo o colocaram no topo dos enólogos argentinos e mundiais. Já nessa condição, ousou fazer seu vinho próprio, em parceria com Adrianna Catena, uma estudiosa do mundo do vinho.

Surgiu então o El Enemigo, marco do rompimento dos dois em fazer seu próprio vinho. Venciam o inimigo, esse ser que os fazia andar em círculos, de lado ou para trás; nunca para frente. Como vinho, é o maior fenômeno argentino: a safra 2019 de El Enemigo Cabernet Franc de Gualtallary simplesmente ganhou algo inédito na América do Sul: duas pontuações de 100 pontos, de Parker e de Suckling, dois dos maiores especialistas em vinho. Outras safras mereceram 100 pontos, e ele é um dos ícones argentinos.

Voltando à Casa Vigil... O passeio pela Divina Comédia é algo inusitado. Construído no subsolo, é um corredor carregado de alegorias e arte, conduzindo à outra viagem no tempo e no espaço. Coisa de louco? Pode ser, mas podemos ser mais justos: coisa de visionário. Ou mais exatos: coisa de Alejandro Vigil.

Por essas e muitas outras, uma visita à Casa Vigil é obrigatória para quem vai a Mendoza. Oferece degustações variadas e um restaurante três vezes premiado pelo Guia Michelin, que apresenta pratos tão refinados, tão bonitos que nos levam a um dilema: comer ou só ficar admirando, eis a questão...