Casa Vigil:
O paraíso existe?
é aqui?
Texto e fotos: José Petit Rodrigues
Um olhar diferente sobre
a Casa Vigil, em Mendoza.
Afinal, lá tudo é diferente
Se houver
mais de um paraíso, certamente a Casa Vigil é um deles. Poderia ser apenas um
restaurante belo e estrelado pelo Michelin ou um bom local para a degustação de
vinhos fantásticos (ou paradisíacos?). É tudo isso, porém, é apenas uma parte
do que o mago Alejandro Vigil e Maria Sance oferecem aos visitantes, sempre
tratados como amigos.
Ao chegar, a
recepção é feita com uma taça de vinho que não é comercializado pela bodega El
Enemigo. Pequena produção, sempre é surpreendente e nos faz lembrar que, mesmo
com toda humildade, o vinho é uma bebida divina. E uma surpreendente empanada
feita com carinho.
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| Foto Olga Maria P. Rodrigues |
Já
pensou numa degustação dessas? E pode levar para casa em vidrinhos... Não que
vá colher e levar. A Casa Vigil prepara uma linha completa de temperos, vendida
com o nome de De mi campo. Se não bastar essa novidade, experimente o sal
grosso do Himalaia temperado com as uvas torrontés ou malbec...
Como não
deve existir paraíso sem uma praça, ali há também uma especial para aguardar a
chamada para o almoço ou degustação. Nada que já não tenha visto, mas será
difícil encontrar outra que ofereça tanta paz. Tanta que é difícil sair dali,
estadia que sempre tem uma tentação a mais: os ótimos vinhos da El Enemigo,
comprados na lojinha e bebidos ali mesmo.
A Casa Vigil
oferece ainda outra atração, esta concebida para brindar à vida: uma
representação em concreto da Divina Comédia de Dante devidamente adaptada a
Chachingo, uma região de Mendoza. A obra faz parte da infância de Vigil:
Tristan, seu avô materno, recitava trechos da obra para o garotinho que ali começou
a entender o mundo voltado à natureza e o estudo da terra. Adulto e formado em
agronomia, ele se tornou o maior especialista em solo e uva, a combinação
perfeita para um bom vinho. Nicolás Catena precisou de dois anos de conversa
para contratá-lo como enólogo. Ele relutava em deixar seu emprego público e
alimentava um certo temor de fazer vinhos.
Alejandro
Vigil não precisou de muito esforço para começar a produzir grandes vinhos para
a Catena. Sua base humanística trazida da família e o conhecimento técnico
proporcionado pelo estudo e experiência logo o colocaram no topo dos enólogos
argentinos e mundiais. Já nessa condição, ousou fazer seu vinho próprio, em
parceria com Adrianna Catena, uma estudiosa do mundo do vinho.
Surgiu então
o El Enemigo, marco do rompimento dos dois em fazer seu próprio vinho. Venciam
o inimigo, esse ser que os fazia andar em círculos, de lado ou para trás; nunca
para frente. Como vinho, é o maior fenômeno argentino: a safra 2019 de El
Enemigo Cabernet Franc de Gualtallary simplesmente ganhou algo inédito na
América do Sul: duas pontuações de 100 pontos, de Parker e de Suckling, dois
dos maiores especialistas em vinho. Outras safras mereceram 100 pontos, e ele é
um dos ícones argentinos.
Voltando à
Casa Vigil... O passeio pela Divina Comédia é algo inusitado. Construído no
subsolo, é um corredor carregado de alegorias e arte, conduzindo à outra viagem
no tempo e no espaço. Coisa de louco? Pode ser, mas podemos ser mais justos:
coisa de visionário. Ou mais exatos: coisa de Alejandro Vigil.
Por essas e
muitas outras, uma visita à Casa Vigil é obrigatória para quem vai a Mendoza.
Oferece degustações variadas e um restaurante três vezes premiado pelo Guia
Michelin, que apresenta pratos tão refinados, tão bonitos que nos levam a um
dilema: comer ou só ficar admirando, eis a questão...







